Um blog em todos os sentidos, com umas coisas escritas por Leonardo Vinhas. Tudo que representa o presente e reflete o passado, sem vaticínios futuros.

Thursday, December 06, 2007

Planeta Terror



Tem gente que nasceu para ser pau-no-cu (oquêi, eu poderia ser mais eloqüente e menos escatológico, mas... hoje não). Lendo as críticas sobre Planeta Terror, a metade mutilada do que seria uma sessão dupla com À Prova de Morte, no combo Grindhouse, pude chegar a essa tocante e mui necessária conclusão.
Robert Rodriguez fez um filme de homem para homens, de garoto para garotos, de fetichista para fetichistas. Isso quer dizer mulheres deslumbrantes em trajes reveladoras agindo como você gostaria que sua melhor amiga agisse, um herói outsider e canastrão (e meio pançudo), coroas legais que tem vários brinquedos possantes, mais mulheres infartantes (como diriam os argentinos), muito sangue de mentira, ação desmedida, um fiapo de história, vilões "sou-mau-mesmo", amputações... Hã, eu disse "amputações"? Pois é, e depois dizem que eu sou freak – não me ocorreu nunca uma fantasia sexual com uma mulher perneta com um taco de madeira acoplado ao coto, e o filme traz isso também...
Muitos se queixaram que Rodriguez só usou clichês, e até houve quem dissesse que ele "se baseou em referências universalmente conhecidas que não de fato não conhece a fundo". Quer dizer, o tipo moleque brasileiro que acha que realmente vivenciou a época dos cines grindhouse nos EUA. Mas é bem esse tipo de cara que chama Sin City de filme noir, sendo que o noir se caracteriza, entre outras coisas, por diálogos curtos e violência sugerida, não por verborragia e mutilações explícitas. Mas enfim...
Planeta Terror é uma festa só. Há muito não desfrutava de tanto prazer numa sala de cinema – também, aquela abertura com Rose McGowan alegra até eunuco emo. Dos créditos até às "falhas nos rolos" do filme, tudo sugere uma grande diversão sensorial e sem culpa, com a diferença de não ser um lixo sádico com pretensões psicológicas como a série Jogos Mortais nem um desfile de crueldades como aquelas nojeiras do Rob Zombie. É um filme de terror para quem gosta e para quem não gosta do gênero, é uma comédia, é um filme de ação, é exercício para cinéfilos... É do caralho!
É legal ver um elenco com tantos astros de filmes que nós já gostamos muito. Michael Biehn (o soldado salvador do primeiro Exterminador do Futuro) não tinha um papel tão legal desde que fizera Johnny Ringo em Tombstone – paradoxalmente, ele é o xerife aqui. Jeff Fahey, o "passageiro do futuro", está velho, acabado e divertidíssimo como o churrasqueiro J.T. Tem ainda o Mr. Hyde Josh Brolin (o rosto dele é pra lá de esquisito) como o médico psicopata, o herói gore Tom Savini como o policial Tolo e, até Carlos Gallardo (o "mariachi" original) dizendo "oi". Fora Bruce Willis como o coronel Muldoon, se divertindo em sua canastrice vilanesca.
Mais legal é o elenco feminino: entre Rose McGowan, uma clone da Uma Thurman e a até a Fergie, sobressaem-se as "Crazy Baby Sitter Twins", dos hermanas latinas loucas, caricatas, rechonchudinhas e muito, mas muito gostosas. Parece que são parentes do diretor. Se for, mais um (ou dois?) motivo para eu querer fazer parte da família.


Como a maioria dos espectadores, eu tenho a forte impressão que se a brincadeira tivesse se mantido intacta – Planeta Terror e À Prova de Morte juntos, mais os falsos trailers – eu teria me divertido ainda mais. Por outro lado, acho que Tarantino não tem o mesmo senso de diversão juvenil de Rodriguez, e seu lado meio macabro, somado ao sinistro Thanksgiving, de Eli Roth (que eu vi no YouTube e me atormenta o sono até hoje), deixariam um ar de desconforto ao final da sessão. Quer saber? Deixa assim. Se der, vou ao cinema ver esse "primeiro movimento" mais uma vez. Tinha saído de casa emputecido por uma briga conjugal e voltei calmo, sorridente e pronto para reconhecer até erros que não cometera. Houvesse mais filmes assim e as pessoas parariam de usar drogas, a paz reinaria nas famílias e viveríamos todos gordos e felizes.
Os críticos? Bem, o Millôr Fernandes já disse que o crítico é um impotente que ganha para estragar o orgasmo alheio. O popular "empata-foda". A crítica cinematográfica começa a ficar parecida com a musical...

Yo tomaría un trago con él... y con sus hermanitas!

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Wednesday, October 10, 2007

Tropa de Elite

Assisti Tropa de Elite. Contrariando meus princípios*, comprei o piratinha de R$ 3,00 e cedi à curiosidade motivada pelo comentário geral. É difícil dizer algo sobre o filme que já não tenha sido dito, seja esse “algo” pertinente ou não, mas o filme realmente te deixa com vontade de falar. Porque ele envolve uma série de coisas que são partes inescapáveis da realidade brasileira.
Muito se comenta sobre a violência do filme, pouco se fala sobre os esquemas que sustentam um sistema viciado e ineficiente, e que o filme mostra com propriedade e clareza. Pouco se fala, também, da conivência social por parte das classes altas, que “em tese” repudia a repressão policial, mas pede medidas extremas quando se vê vítima da violência.
Isso me traz à memória uma entrevista que o Laerte deu à Caros Amigos, na qual ele comentava uma série de tiras que ele estava fazendo sobre o desrespeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente: “então, estou fazendo essas tiras, mas entendo que alguém que teve um parente assassinado por um criminoso menor de idade não vai achar graça nenhuma nisso. O meu envolvimento é um, mas de quem está nisso é outro”. E isso muda opiniões e valores, certamente.
Nós, brasileiros, queremos leis, e queremos que elas funcionem, desde que elas não prejudiquem nosso direito de ter mais privilégios e posses que os outros, e que possamos fazer com esses direitos o que bem entendermos. Já dei aulas em favelas e projetos sociais, e notei que a raiva dos jovens quanto aos “playboys” não se traduzia em uma repulsa ao comportamento destes, e sim em vontade de ser exatamente igual a eles. Como comentei uma vez com uma turma: se vocês tivessem grana, seriam iguaizinhos – para a minha surpresa, a maioria concordou! Também já lecionei em colégios particulares e de classe alta, e cada vez mais os garotos bem-nascidos estão assumindo abertamente seus preconceitos raciais e sociais – mas isso você nem precisa ser professor para notar. Basta dar uma olhada em comunidades do orkut como “Odeio pobre” e afins.
Dizer que nossa sociedade é hipócrita é chover no molhado. O que se esquece é que, se a sociedade é hipócrita, é porque ela reflete valores e atitudes das pessoas que a constituem, independentemente de classe social. E o cinismo virou o último refúgio de quem não consegue sair do discurso benfazejo e partir para a prática.
Em conversa com um amigo, jornalista responsável pela editoria política, ele disse: “tô cagando pra política partidária. Pode ser o foco do meu trabalho, mas isso, já percebi, não leva a lugar nenhum. Me interessa muito mais a micro-política, aquelas coisas do dia-a-dia, como o cara trata os filhos, o garçom, como ele se comporta no ônibus. Isso é o que vai mostrar mesmo o caráter do cara, e no fim é só isso que interessa”. Concordo, e vou um pouco além: me interessa também o que o cara faz no seu trabalho, também, porque no fim é isso que azeita a engrenagem e alimenta o motor desse sistema social. Não importa se você é professor, jornalista ou varredor de rua, a tua postura é que vai ajudar a ditar o ritmo das coisas. Não é criando ONG que se muda alguma coisa, nem participando de “projetos sociais” (como eu já trabalhei em vários, e não vi praticamente resultado nenhum – recentemente, trabalhei em um que não fazia mais que preparar uma garotada para dizer “sim, senhor” e se conformar com salários humilhantes).
Esse aspecto do filme chamou muito mais atenção que a questão policial, que não é menos urgente, é verdade, mas me parece ser parte desse sistema maior e mais opressivo. O filme é direitista? É. Reacionário também? Discutível. O filme assume um ponto de vista, e mantém essa referência até o fim. Se ele desperta reações extremadas, a culpa não é do diretor, e sim dos demônios que passeiam na alma de cada espectador.

Porque foto do Wagner Moura já tem demais.



*Meus princípios incluem ver filmes com boa qualidade de áudio e imagem, coisa que os piratas geralmente não têm. Além disso, os extras, via de regra, apresentam problemas ou simplesmente não funcionam. Ou eu é que sou muito azarado.

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Monday, September 24, 2007

Babel

O diretore Alejandro Iñarritu se empolgou com grana demais na mão ou 21 Gramas foi apenas um golpe de um gênio que só se manifesta uma vez? Não sei, mas o fato é que, qualquer que fosse a intenção dele com Babel, ela não foi atingida.

Quando até a Isabela Boscov, da Veja, disse que o filme se perdia numa duração excessiva e que todos os atores, fora a chinesinha medonha, estavam péssimos, eu já fiquei com um pé atrás. Quem conhece os textos da moça em questão sabe do que estou falando. Aí, amigos começaram a dizer que o filme... bom, não era tudo isso. Nem aquilo. Não era nada, na real.

Não sei se minha mente é que é deturpada demais, mas me pareceu um filme preconceituoso, maniqueísta e depravado (criança se masturbando, adolescente surda-muda pelada, crianças assassinando adultos, necro-coprofilia sugerida - naquela cena em que Brad Pitt beija a mulher moribunda enquanto ela está mijando numa panela. Enfim, uma senhora perda de tempo, no qual todos gritam e ninguém se entende.

Só tenho dó do público feminino que foi ao cinema para ver Pitt e Gael García Bernal (atuação apagada num papel francamente acessório) no mesmo filme. Deve ter sido uma puta decepção.

Eu fico com o Barão de Itararé: "de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo".

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Monday, September 10, 2007

O Albergue Espanhol

Filme feito em 2003, mas que se passa à época da unificação européia, na qual os países ainda mantinham suas moedas (e identidades) nacionais. Embora os mais querelantes possam considerar o filme como “anti-integracionista” ou alguma coisa assim, dá para perceber que sua tônica é o respeito à integridade cultural de cada um – aliás, é quase uma pequena pérola sobre ser você mesmo convivendo com os outros. Claro que tudo é facilitado dentro da realidade onde o filme se insere – ou seja, é fácil “se integrar” se você é jovem, bem-apessoado e europeu (tá, tem um figurante do Gâmbia para livrar a cara do diretor Cédric Klapisch). Considerações sociológicas à parte, é muito bacana ver como Klapisch trabalha possibilidades simples de câmera, principalmente a perspectiva, para mostrar as transformações pelas quais o personagem Xavier (Romain Duris) passa. Ele é um bundinha parisiense que vai passar um ano na Espanha estudando economia para garantir um emprego na companhia do amigo do papai. Mas a partir do momento que se despede da mãe hippie superprotetora e da namorada chatinha (Audrey Tautou, a Amélie Poulin) no aeroporto, já se percebe que a bundamolice vai ter que acabar na marra – aquele “se virar” que todo mundo que largou o útero familiar e foi morar sozinho já passou, uma experiência que acaba te mostrando o teu verdadeiro caráter e te revela seus mais íntimos valores, alguns surpreendentes e outros desastrosos. Nesse processo, a Barcelona onde Xavier está é geograficamente a mesma, mas vai se revelando diferente conforme a necessidade o obriga a sair de seu confortável casulo.

O filme conserva um astral altíssimo, mesmo na hora das fossas abissais vividas pelos “pós-adolescentes” (interpretados por atores muito mais velhos que essa idade, diga-se), mas faz até de seus pecadinhos pequenas virtudes: afinal, o quanto conhecemos alguém? Não sabemos mais que pequenos detalhes ou grandes irrelevâncias, e terminamos o filme conhecendo tão pouco dos “alberguistas” (é uma “república estudantil”, na verdade – será que ainda se usa esse termo?) quanto Xavier, mas o que vemos, nos permite inferir algumas coisinhas... inclusive que a vida não será a mesma. Que muita coisa mais vai parecer sem graça e insuportável. Que nada vai ter aquela emoção que te acomete quando você se põe a arriscar uma comovedora ingenuidade. Que o cinismo vai ser uma presença mais constante.

Quando Xavier volta, ele se sente, enfim, estrangeiro em sua própria casa. Não mais parisiense nem nada, mas alguém que sabe que seguir em frente é o único meio de continuar a vida, pois olhar para trás, além de atravancar tudo, só traz dor. E a câmera acompanha essa mudança em seu rosto, o ar de bundão abandonando subitamente sua cara.

Alguns poderiam reclamar do final algo irreal e sonhador, ainda mais depois do passeio parisiense impregnado de “realidade”. Mas o diretor, pelo visto, se permite sonhar, e quis fazer uma película na qual pudesse compartilhar isso com os outros. Agradecemos.


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Monday, September 03, 2007

The Indian Runner


“Assistiu a Indian Runner?”

“Só há um grande filme, e Sean Penn é seu diretor”.

(Diálogo entre os personagens Sbórnia e Cardan, no livro Bagana na Chuva)

... E foi numa tarde de terça-feira que eu achei o VHS de The Indian Runner, sob o título nacional Unidos pelo Sangue, à venda numa locadora falida de Foz do Iguaçu. Faz até algum sentido: encontrar esse filme ali, num lugar à vista de todos mas num canto meio esquecido e desconsiderado, mais ou menos como Frank Roberts.

Frank voltou do Vietnã para ver o irmão Joe, e somente ele. Deixa os pais de lado pois “eles vão até ficar aliviados”. Eles sabem que Frank é reckless, indomável, destrambelhado – e de delinqüente juvenil para paria adulto é um pulo, e não demora muito para que ele vá parar na cadeia por bater na namorada. Nesse ínterim, sua mãe morre, e Joe acha que é hora de fazer alguma coisa para salvar seu irmão. Joe é policial, acredita em família e vive segundo sua crença. É casado e tem um filho, algo que Frank parece (veja bem: parece) invejar, está sempre com eles e/ou com o pai. E parece preservar pouco deste, assim como o irmão. Os dois irmãos Roberts parecem ser forças à parte de sua família, a natureza e a civilização enquanto seres vivos, animais que agem segundo sua própria natureza e se vêem incapazes de compreender a natureza alheia. Claro que esse ímpeto de “salvação” proveniente de Joe vai cobrar de todos eles e de outros mais um preço. As escolhas ditarão caminhos que não estavam previstos e, se pararmos para pensar, não poderiam ser evitados.

Agora pense: Sean Penn é um diretor que, mais que contar histórias, arranca do ator atuações angustiantes em sua precisão, sempre com histórias de pessoas que estão entre o dever e a dor, pessoas que pagam pela própria vida (ou com a sanidade) por suas escolhas indomáveis. Assim ele arranca de Viggo Mortensen (Frank) e David Morse (Joe) as melhores atuações de suas vidas. Charles Bronson, numa participação cortante de tão frágil, é o pai do clã. Dennis Hopper aparece menos de cinco minutos para garantir um dos diálogos mais assustadores do filme (aliás, os diálogos são excepcionais, mas são cruelmente mutilados pela legendagem da Tri-Star.Columbia). Eu ia escrever que, não obstante a presença da bela Valeria Golino como a esposa de Joe, esse é um filme para homens. Mas já não tenho mais certeza – aliás, o filme não te deixa nenhuma certeza sobre muita coisa, já que os dilemas do dia-a-dia vão se avolumando a uma questão crucial: quanto se morre pra poder viver? Obrigado ao Linari pela frase.

Acontecimentos levam Frank a assumir trabalho, filho, a casa paterna, cama king-size e churrascos em pesqueiros no fim de semana. A pergunta é se Frank assumiu ou aceitou isso tudo, e a resposta vem em forma de vômito, a verdade escarrada para o mal estar de quem está na tela e do outro lado dela.

Nada disso impede Joe de ver seu irmão caçula como o garoto que brincava com ele na infância. Isso também é de sua natureza. Quando é preciso, Joe também vomita sua verdade, seu sangue sendo derramado com menos dor do que o sangue alheio. Joe mostra à Frank em que acredita, logo depois que ele fizera o mesmo. Coisas explodem, e os estilhaços vão criar feridas na alma que nunca cicatrizarão. Com a família é assim.

E a coisa toda daquela pergunta, sobre o que está em nossa natureza e o que advém de escolhas, volta, na forma de cartas na mesa, com a última colocação de Joe, narrador do filme. E vamos todos para a casa sem rumo, querendo saber se para onde estamos indo é casa ou só mais um lar.

Indian Runner (o porquê do título se perde nas legendas podres) é o filme mais perturbador que assisti em muito tempo. Não é tocante como O Labirinto do Fauno (filme que me deixou de cara há poucas semanas), está mais para O Lenhador, no qual Kevin Bacon mostrava que dentro de todo monstro tem um ser humano. Esse Runner corre em terreno semelhante, mas para um outro lado, o lado que reza conforme aquele velho aforismo: nem o mais alto dos muros consegue nos proteger de nós mesmos.

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Monday, July 16, 2007

Filmes, livros e afins, todos conferidos recentemente. Vamos lá:

O JOGADOR MISTERIOSO (The Card Player)

Dario Argento tem uns traços em sua obra que parecem ser indeléveis: a mistura de misoginia com adoração excessiva pela figura feminina (em especial mulheres jovens, belas e emocionalmente abaladas), violência com armas brancas e demais objetos perfurantes, ruas escuras, ambientes claustrofóbicos, bondage precedendo a morte, homens heróicos que tem sua dignidade punida com assassinato, desejo enquanto obsessão e loucura; e no centro disso tudo, uma mulher com traumas familiares e dificuldade em ter relações sexuais. O Jogador Misterioso tem isso tudo, com menos sangue e violência gráfica que o habitual, mas com direito a uma mini-autópsia. Às vezes acho ele um ótimo diretor que faz filmes confusos; em outros casos, um pervertido que faz filmes interessantes. Esse em questão tá no meio termo entre os dois. Estranho.

FLORES PARTIDAS (Broken Flowers)

Dizem que esse é o filme mais comercial e acessível de Jim Jarmusch. Como dele eu só vi Estranhos no Paraíso e Dead Man, não posso opinar com propriedade, mas não vi maiores concessões que a cor ou alguns nomes famosos no elenco (excepcional, aliás). É um grande filme: poético, estradeiro e muito, muito bonito, ainda que com um travo de amargura. A história do Don Juan que nunca se viu como tal e só vê tédio em sua tranqüilidade (e vice-versa) sai numa busca (induzida, sim, mas também escolhida por ele mesmo) pela mãe de seu hipotético filho. Os cinco (sim, cinco! Reveja o filme e conte direito) encontros não trazem o passado de volta - coisa que ele, Don (Bill Murray), nem queria. Mas isso não quer dizer que ele ficou para trás. De comover o coração e (acima de tudo) a mente.
Observação: apesar do notável elenco feminino e da atuação impressionante de Murray, quem rouba a cena é o carismático Jeffrey Wright, no papel do vizinho de Don. E é ele quem fornece a trilha do fimle, um aplastante jazz etíope temperado com algumas soul songs. Alguém tem essa pérola para eu gravar?

QUARTETO FANTÁSTICO E O SURFISTA PRATEADO (Fantastic Four 2 – The Rise Of The Silver Surfer)

Sempre vi o Quarteto como personagens de segunda (aliás, terceira) categoria, cuja fama se deve mais à tradição (ter sido uma das primeiras criações da Marvel) do que à qualidade de suas histórias ou ao carisma de seus personagens. Assim, passo longe de ser o típico fanboy e consigo me divertir bastante com as duas tranqueiras que são os filmes da série. Claro, as atuações são horríveis, os diálogos pueris (mas vá lá, eu ri um monte) e os efeitos especiais desperdiçados na “dancinha do Reed Richards” poderiam ser melhor gastos aprimorando o Galactus. Pra não falar no Dr. Destino, corno de novela mexicana transformado em supervilão. Mas e daí? Estamos falando da equipe de super-heróis que dá mais margens para brincadeiras escatológicas – ou vai dizer que você nunca parou para imaginar como seria uma transa do Sr. Fantástico, aquele que estica todas as partes do corpo, com a Mulher Invisível? E olha que eu nem citei o Coisa (aliás, beeeelos nomes, hein?), um gigante de pedra alaranjada. A ação demora séculos para acontecer, porém quando chega, é aquela seqüência de ação digna de empolgar o adolescente nerd dentro de cada um. Tudo como um grande hambúrger – zero de valor nutritivo, muito espalhafato e nada que fique na memória, Mas na hora, cai que é uma maravilha.


APOCALYPTO

Mel Gibson gosta de sangue, sofrimento e crueldade. Adora mostrar gente inocente sofrendo, com detalhes para o sangue, mutilação e humilhações, com especial destaque para a garganta de um ente querido sendo cortada ou para alguém sendo torturado em posições de sacrifício ritual. Depois dizem que eu é que sou bizarro e fetichista...
Apocalypto traz a mesma coisa que você já viu em Coração Valente e A Paixão de Cristo, só que sem a empolgação do primeiro ou a polêmica do segundo. Simplesmente não há história, é quase um O Albergue passado na civilização maia: gente inocente sendo mutilada sem razão nenhuma, e depois sendo vingada por um “herói” com ainda mais requintes de crueldade. Nada de se espantar para quem colocou um corvo comendo os olhos do ladrão que zombou de Jesus (só faltou mostrar Judas sendo empalado com um ferro em brasa).

Já pensou o que a mulher desse cara deve agüentar na cama?

E se não ficou suficientemente claro: o filme é apelativo, com roteiro cheio de buracos e cansativo pacas. Fora que deve ter gerado um impacto ambiental irreparável. Merda superproduzida e pretensiosa não deixa de ser merda.

A CABEÇA – Luiz Vilela

Se eu não chamei Luiz Vilela de “gênio” umas postagens atrás, foi apenas porque a palavra anda desgastada pelo mau uso – e também porque eu ainda não tinha material o suficiente para analisar isso. Esse A Cabeça veio para confirmar a impressão que Histórias de família tinha deixado: uma prosa seca e curta, tão centrada em diálogos tão bem-conduzidos que não dá para entender como ninguém adaptou algum dos dez contos desse livro para o teatro (fica a dica). Minas Gerais é um palco onde o mundo explode em tabus, violência, dogmas vazios e escatologia, tudo isso sem a avalanche limítrofe de “merda”, “porra” e “cacete” que uns e outros gastam por aí. Quando ele quer ser sensual, ele vai cutucar na tua pedofilia não-assumida (“somos todos meio pedófilos, mas quem vai dizer?”, sentenciou uma amiga uma vez), por exemplo. Quando há violência, ela aparece na tensão de um moreno bonachão papeando numa mesa de bar do interior de Minas Gerais, torturando a consciência do cara que o sacaneou – sacaneou mesmo? Freiras em férias, uma querendo dar, a outra querendo ver e a terceira rezando por elas... todas no fim, só pensando nos bolinhos de bacalhau do retiro para onde deverão ir. Podia continuar listando os “causos”, mas o recado está dado: A Cabeça é um livro que se lê de uma “sentada” só (em uma hora dei conta do bicho), mas o qual se relê (física e mentalmente) muitas e muitas vezes...

SÉRIE GARFIELD L&PM POCKET – Jim Davis

São sete volumes e eu tenho todos. Faz pouco tempo, comprei o 6 e o 7, que são os melhores até agora, junto com o primeirão. Pegam fases mais antigas do gato mais famoso do mundo, com o cinismo ainda em dia (se bem que não perdeu a validade), o apetite mais voraz, as banhas mais disformes, a preguiça mais indolente, etc. Ah, claro, e um Odie mais babão e um Jon mais panaca. Eu acho Garfield um ícone dos tempos modernos e deixo esses livrinhos expostos com certo destaque na prateleira porque, na real, são um dos meus itens preferidos de meu humilde acervo. E estou disposto a adquirir quantos mais volumes vierem!

LIGA DA JUSTIÇA – Keith Giffen

Quem tá perto dos 30 e tinha o saudável e dispendioso hábito de ler quadrinhos na adolescência, certamente tem as melhores lembranças da Liga da Justiça escrita pelo Keith Giffen. Por várias razões editoriais que não cabem aqui, o cara teve que trabalhar com personagens bisonhos como Besouro Azul, Gladiador Dourado e Homem Elástico. Aí ele e seu parceiro J. M. de Matteis fizeram a única coisa possível: escracharam as tramas e as atitudes dos ditos “heróis”, fazendo uma série mais de comédia que de ação, onde o humor absurdo de Giffen era completado pelos diálogos prolixos e cheios de ironias e jargões de De Matteis (já que Giffen escrevia apenas os roteiros, deixando os diálogos para seus colaboradores). Quando entravam os ditos heróis “consagrados” (Batman, Aquaman e afins), a coisa toda ficava ainda mais divertida, ao contrapor a suposta “seriedade” desses personagens jurássicos com as palhaçadas da nova equipe.
Achei uns números da antiga revista Liga da Justiça bem baratinhos num sebo daqui de Foz e comprei uns números de diferentes fases. Ficou claro que, com De Matteis e o desenhista Kevin Maguire, Giffen teve seus melhores momentos, com mais criatividade e menos repetições de piadas e situações – coisas que passaram acontecer com outros parceiros que ele teve. Pena que os quadrinhos mainstream não comportem mais esse tipo de “ousadia”, que garantia, na mais remota hipótese, boas risadas. Agora é um tal de matar e reviver personagem...

A MORTE DE IVAN ILITCH – Leon Tolstoi

O conde Leon Tolstoi é considerado um dos maiores nomes da literatura de todos os tempo, autor de obras tidas como imortais, como Anna Karenina e Guerra e Paz. O curioso é que, no fim da vida, ele passou a renegar esses todos os seus demais trabalhos anteriores, centrando foco nos seus últimos escritos, entre eles, este A Morte de Ivan Ilitch, “o mais conciso e mais poderoso conto de todos os tempos, a melhor narrativca já escrita”, segundo alguns críticos. Desconheço os clássicos citados, mas sobre o livro em questão, tenho uma forte tendência a acreditar nos críticos. Em menos de 100 páginas de um livro de bolso, testemunhamos a agonia dos últimos dias de um burocrata e sua mediocridade próspera desde a infância. Dizer que o livro critica a hipocrisia das instituições ou o vazio da vida burguesa é limitar a análise à discurso de calouros de faculdade xarope. Digamos que, mesmo antes de terminá-lo, ele incomoda. E incomoda. E incomoda...
E segue incomodando e questionando até agora.

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